Combustão Planetária Na Astrologia Tradicional
Na astrologia tradicional, a combustão é uma das mais graves debilidades acidentais que um planeta pode sofrer. Diz-se que um planeta está combusto quando se encontra demasiadamente próximo do Sol, a tal ponto que se torna invisível no céu, ocultado pelo brilho solar. Esse dado astronômico é o fundamento simbólico da interpretação: aquilo que não pode ser visto claramente também não pode agir de modo pleno e manifesto.
Os autores antigos são praticamente unânimes em afirmar que a combustão aquece a natureza do planeta. O Sol, por sua própria essência, é quente e seco; ao aproximar-se excessivamente dele, o planeta é como que “queimado” por essa qualidade. Assim, um planeta de natureza quente torna-se ainda mais quente, o que intensifica seus impulsos ativos, sua pressa, sua veemência e, muitas vezes, sua imprudência. Já planetas de natureza mais fria ou úmida sofrem um desequilíbrio, sendo forçados a agir sob uma qualidade que não lhes é própria, o que gera perturbação, confusão e enfraquecimento de sua virtude natural.
Por essa razão, a combustão jamais deve ser ignorada em um julgamento, pois ela indica não apenas enfraquecimento, mas também ocultação da força e da operação do planeta. O planeta combusto quer agir, mas age nas sombras; quer significar, mas sua significação não se revela de modo claro.
Abu Ma‘shar, em As Revoluções dos Anos nas Natividades, Livro VIII, capítulo 13, ensina com extrema precisão:
Quando um planeta está junto do Sol, dentro do raio de combustão, sua força é escondida, e sua obra é oculta.
Se for benéfico, sua bondade é escondida; se for maléfico, sua maldade é escondida. Nada se manifesta claramente até que saia dos raios.
Se o planeta se levanta matutino do Sol, torna-se forte após a combustão; se está vespertino e vai ao Sol, torna-se fraco.
Se o planeta está exatamente unido ao Sol em mesmo grau e minuto, então torna-se partícipe da significação do Sol.
Essa passagem resume de forma exemplar a doutrina tradicional. A combustão, portanto, não anula a natureza essencial do planeta, mas vela sua manifestação. Um benéfico combusto continua sendo benéfico, porém sua capacidade de proteger, favorecer e estabilizar fica encoberta. Um maléfico combusto continua sendo maléfico, mas sua capacidade de causar dano também se torna menos visível, atuando de modo mais indireto, oculto ou interno.
Especial importância tem a distinção entre o planeta que sai dos raios do Sol e aquele que caminha para a combustão. O planeta que nasce matutino, emergindo da proximidade solar, recupera sua força gradualmente, como quem retorna à visibilidade e à potência de ação. Já o planeta que se dirige ao Sol, tornando-se vespertino, caminha para a perda progressiva de sua virtude, sendo cada vez mais absorvido pela luz solar.
Por fim, quando há conjunção exata, no mesmo grau e minuto, o planeta é considerado partícipe da significação do próprio Sol, como se sua natureza particular fosse temporariamente submersa na natureza solar. Nesses casos, o planeta deixa de agir por si e passa a operar como instrumento direto da autoridade, da vitalidade e do poder solar.
Assim, na astrologia tradicional, a combustão não é um detalhe secundário, mas um fator decisivo de julgamento, pois indica ocultação, calor excessivo, perda de autonomia e subordinação ao Sol — elementos que alteram profundamente a maneira como os significados planetários se manifestam na vida.
Bibliografica Consultada
Abu Ma‘shar, As Revoluções dos Anos nas Natividades, Livro VIII, capítulo 13
